quinta-feira, 22 de março de 2012

Visão

Sempre enxerguei muito mal.
Quando era criança, saía correndo e batia os ombros nas soleiras das portas e meus pais achavam que eu era somente doida e agitada.
Quando atingi idade escolar, a professora da 1ª série chamou minha mãe e disse que era preciso avaliação de um oftalmologista porque eu sentava na primeira classe e ainda levantava para chegar mais perto do quadro negro para conseguir enxergar. Resultado: um par de óculos fundão de garrafa, com 6 ou 7 graus. Além de doida, era quase cega.
O tempo foi passando e o grau foi baixando e estabilizando, mas nunca pude abandonar os óculos, não me adaptei com lentes e meu problema não tinha cirurgia.
Uns dois anos atrás o médico disse que depois dos quarenta ia começar a ter dificuldade de enxergar perto também. Concluí que se não vou enxergar nem longe e nem perto, deve ser o começo do fim.
Pois que semanas atrás já senti os primeiros sintomas; olhei-me no espelho e vi um pêlo pra tirar na sobrancelha, peguei a pinça e coloquei os óculos e voltei pra tirá-lo e não estava mais lá. Ué! Tirei os óculos e enxerguei de novo. Conclusão: de perto enxergo melhor sem os óculos. A sensação foi muito estranha, parece que colocaram outros olhos no lugar dos meus!
Mais recentemente levei o tiro de misericórdia. Fui ver a validade na embalagem de um produto e não consegui, aproximei a embalagem dos olhos e piorou, estiquei um pouco o braço e vi claramente os números. Dei um grito na cozinha: SOCORRO ESTOU FICANDO VELHA!
Por enquanto meu braço tem um tamanho bom, daqui a pouco vai faltar braço!
Se for ao médico, ele vai receitar um tal de óculos multifocal. É a treva!
Os que já passaram por isso sabem muito bem tudo o que estou sentindo... É bem desagradável.  Aos outros aconselho não rir, porque ainda não inventaram o elixir da juventude!
Diz o ditado que “o pior cego é aquele que não quer ver”, porém, “o que os olhos não vêem o coração não sente”... Aguardemos os acontecimentos...
Beijocas
Claudia Pelissoli

domingo, 11 de março de 2012

Vovó

  Não se fazem mais avós como antigamente... Ainda bem!
  Quem era a avó? Aquela senhora idosa que ficava intercalando a cadeira de balanço com a cozinha e a horta?
  Que estava sempre em casa fazendo tricô, crochê e bordados ou cozinhando quitutes que só ela sabia fazer?
  Que usava roupas mais largas, chinelo de pêlo e mantinha os cabelos brancos num coque?
  Nós nos lembramos dessa figura, nossos filhos já ouviram falar, nossos netos não saberão que ela existiu!
   Hoje em dia ela é outra pessoa: o máximo de trabalhos manuais que sabe fazer é pregar um botão (talvez).
  É atualizadíssima, pois lê jornais, revistas, usa a internet, tem e-mail e facebook.
  É aposentada, mas está longe de ser inativa: estuda, faz cursos, ginástica, tem várias atividades marcadas todos os dias, namora, dança... Querem que ela fique com os netos sábado à noite? Só se não tiver compromisso, o que é difícil, então agende com bastante antecedência.
  Cozinhar pra quê? Comer fora é bem mais barato e, além disso, ela se cuida, não quer engordar, evita frituras e doces, é a rainha da salada e não duvide se tiver menos celulite que a neta adolescente.
  E ela gasta muita grana: investe em roupas, acessórios, calçados, maquiagem, tratamentos de beleza, cirurgias plásticas, viagens... E sabe dirigir, e tem seu próprio carro. Cabelo branco? Nem pensar, salão de beleza de quinze em quinze dias resolve este probleminha.
  É claro que existe a figura do avô, mas ela não depende dele, aquela avó submissa já morreu. Até porque em 90% dos casos ela que fica viúva e dona do campinho. Não sei por que eles insistem em partir na hora boa de aproveitar a vida.
  Essa é a avó moderna, uma pessoa bem resolvida, que insiste em ser feliz e participante de tudo: bem que ela faz. Afinal de contas, como dizia uma propaganda antiga de absorvente: incomodada ficava a sua avó!
   Agora eu pergunto: como será a avó do futuro?
Beijocas
Claudia Pelissoli